Segunda-feira, 6 de Julho de 2009

Manifesto

Por volta de 1909, o meu bisavô materno foi para o Brasil e nunca mais voltou, nem deu notícias.
O meu bisavô não era um desgraçado, nem um "parasita".
Era um próspero marceneiro estabelecido na Rua do Loureiro, no Porto; era, suponho, o que hoje se chama um pequeno empresário bem sucedido.
Pois bem, fez-se brasileiro.
Ainda hoje, na minha família, este é um facto mencionado com um perplexo despeito e um envergonhado rancor.
Vem isto a propósito de a pianista Maria João Pires ter declarado a sua decisão de se tornar cidadã brasileira. “(…)foi, creio, a notícia mais comentada no “Público” online desde ontem com setecentos e dezoito comentários (718!!), muitos deles, a maioria, a esmagadora maioria, desfavoráveis à pianista. E porquê?”
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Ora, porque os portugueses acham que uma artista que tem há vinte anos um contrato com a Deutsche Grammophone, investe na educação e na cultura e pretende apostar num projecto pedagógico inovador no interior desertificado só pode ser uma “parasita”. Porque sim. Além disso, todos os artistas são uns chulos e uns subsídiodependentes.
Embora haja excepções. Há artistas que os portugueses consideram.
Sentem-se representados por eles. Encarnam verdadeiramente a “alma lusa”.
Por exemplo, Joana Vasconcelos. Esta artista contemporânea, tão apreciada pelos media, e até pelos ingleses, ao contrário de Maria João Pires, essa elitista, consegue fazer arte que os portugueses compreendem. Com o recurso a efeitos kitsch, faz paráfrases monumentais de conhecidas obras anti-arte (como a da imagem a esta, de Joseph Beuys ou esta a esta, de Marcel Duchamp) que, segundo os críticos, são verdadeiros “comentários” à “portugalidade” e à “contemporaneidade”. Os portugueses, mesmo aqueles que não percebem nada de arte, são notoriamente sensíveis ao imaginário pimba, salivam com a sua imaginação e criatividade e, não só entendem a vácua profundidade dos acima citados comentários, como até os acham “giros”.
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-À medida que fui crescendo fui-me deparando com certas perplexidades que me vão fazendo entender melhor as atitudes da notável pianista e do meu bisavô António.
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-O que faz a pianista Maria João Pires num país de pianos como este?

-O que faz uma artista como Maria João Pires no país do Quim Barreiros, do Filipe la Féria, do Miguel Sousa Tavares, do Tony Carreira, do Cristiano Ronaldo e do José Rodrigues dos Santos?
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-O que fazemos (pelo menos alguns de nós) no país do Manuel Pinho, do Vilarinho, do Dias Loureiro do BPN, do Jardim Gonçalves, do BCP, do BPP, da Casa Pia, do Jorge Coelho, do Valentim, da Fátima Felgueiras, do Jardim, do Berardo, do Freeport, da TVI, da PT e do José Sócrates?
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-O que faria o meu bisavô num país que elegeu consecutivamente um imbecil que recentemente condecorou a título póstumo um homem decente a quem, em vida, recusou uma pensão de subsistência?
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-O que faço eu num país que pondera renovar a maioria absoluta a um “engenheiro” que se licenciou a um domingo e que passa a vida a perorar pela “qualificação” dos seus concidadãos mas que acha que investir na cultura e na educação além de “despesismo”, é “alimentar parasitas”?
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Um dia, quando for grande como Maria João Pires ou como o meu bisavô António, eu também quero ser brasileiro.
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-Juro.

Domingo, 5 de Julho de 2009

A psicofoda* do humor “saudável”




“O humor é uma arte difícil,
se é muito ligeiro não se compreende
e se é muito pesado pode esmagar os pés a quem o lança”. Pitigrilli
Ao contrário do colega local de “O Quinto Poder”, eu não acredito no humor bom e no humor mau, o “saudável” e o “doentio”. Duvido muito do humor "recomendável".
Suspeito que o humor provém de uma irreprimível e imponderável pulsão do inconsciente que não se compadece com as conveniências do politicamente correcto (vulgo sensatez).
O humor é uma arma dirigida mas, convenhamos, muito difícil de manejar. Não tem perdão nem inocência. Das duas, uma: ou é eficaz e consequente (e aqui recorre a todas as munições da inteligência - da subtileza à obscenidade, passando pela desmesura) ou é amável e inofensivo. No primeiro caso acerta quase sempre em cheio, não mata mas mói; no segundo é um tiro frouxo, nem faz cócegas, é uma gracinha, anódina como tudo o que é sensato e recomendável. É bem tolerado e muito frequente nos nossos “jornais de referência”.
Contudo, a gracinha tem uma variante mais popular, de efeito mais imediato ou óbvio a que se pode chamar graçola. Em geral, e apesar da sua carga algo pesada e grosseira, é vista com benevolência pelas elites dado o seu carácter naïf, popular. É até incentivada, sobretudo pelas televisões. Está tão difundida entre nós que já se tornou uma aceitável e convencionada (dentro de certos limites, como quase tudo em Portugal) “arma de arremesso político”, como se viu recentemente no parlamento; o que levou Camilo Castelo Branco a afirmar, triste e psicofodido, que “os portugueses não sabemos rir com espírito, apenas gargalhamos com os queixos.
Parece-me, no entanto, abusivo querer aplicar ao humor quaisquer códigos de ética. E parece-me igualmente destrambelhado atribuir ao humor veleidades “construtivas” quando a sua função primordial e intrínseca é “desconstruir”, se é que me entendem.
Eu acredito que o humor consequente não é moral nem imoral, é amoral, isto é, move-se em terrenos do senso comum; não da moral, que é um dos domínios do preconceito.
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*sobre o conceito de psicofoda, ver aqui e aqui.

Sábado, 4 de Julho de 2009

Maria João Pires


Quinta-feira, 2 de Julho de 2009

sem título




Segunda-feira, 29 de Junho de 2009

Lemniscata

Pedro Penilo, do blogue Que diz o pivô, teve a amabilidade de me contemplar generosamente com este Prémio, o que me deixa desvanecido, para mais quando “O selo deste prémio foi criado a pensar nos blogs que demonstram talento, seja nas artes, nas letras, nas ciências, na poesia ou em qualquer outra área e que, com isso, enriquecem a blogosfera e a vida dos seus leitores."
Segundo as regras, é suposto eu atribuir este selo a outros sete blogues. Aí vai disto (por ordem alfabética, meninos):

Quinta-feira, 25 de Junho de 2009

Samuel, o cantigueiro


A cantiga é uma arma, eu já sabia.
Mas Samuel, tem outras: o seu blogue o cantigueiro, por exemplo, é de um humor refrescante, por vezes corrosivo, quase sempre demolidor e um dos mais certeiros nos comentários críticos que faz à actualidade, além de ser também um dos mais bem escritos.
Soube que o seu nome vai integrar a lista de candidatos a deputados por Évora, nas próximas eleições. Resta-me desejar-lhe que a sua opção pela política (e a sua acção na política) sejam tão certeiras como o seu blogue, que vai aqui para o lado compor o rubro ramalhete de papoilas que já lá está.

Terça-feira, 23 de Junho de 2009

Boris Vian




A juventude precisa de referências (ehehe).

E quem melhor que Boris Vian, que amava o humor (mesmo o mais negro), a patafísica, o jazz, a liberdade e as palavras? De maneiras que é assim. De vez em quando, recuperam-no. Já assim foi em 1968.

Segundo o “Figaro", saiu ontem, em França, um álbum de “homenagem” a Boris Vian, com quarenta canções, (dezanove inéditas), interpretadas por outros tantos “jovens de talento”, entre os quais Juliette Greco e jeanne Moreau. Ah, la douce France! “Ça swingue, valse, vibre avec ironie, humour, sensibilité, «ça joue» comme disent les musiciens quand le son prend aux tripes».

Domingo, 21 de Junho de 2009

O candidato Joker


Eis mais um cromo para o meu Álbum Figueirense.
Trata-se do mais recente candidato a pretender ocupar a cadeira de Santos Rocha.
Se a política é um jogo, este deve ser o Joker local.
Numa cidade em que quase todos os partidos têm candidatos independentes, ele é independente dos partidos. Contudo, nem sempre foi assim: Daniel Santos cumpriu um mandato como vice-presidente do município e vereador do urbanismo no consulado de Santana Lopes e outro como presidente da Assembleia Municipal no primeiro mandato do actual presidente da Câmara.
Este engenheiro civil, com um gabinete de projectos há muito instalado na cidade, sabe de urbanismo como poucos e de planificação urbana como ninguém; pode dizer-se que, de há trinta anos para cá, pelo menos, o urbanismo e o planeamento não têm segredos para ele: à excepção da urbanização das Abadias, do Museu, do seu parque e do bairro do Cruzeiro, últimos exemplos do urbanismo planificado da outra senhora, pouco deve ter sido construído na cidade e arredores sem a sua participação, consciente ou omissa, como agente activo de uma concepção de urbanismo que está à vista de todos.
Daniel Santos, que aprovou (não consta que tenha manifestado reservas) a privatização dos serviços municipalizados de Água e Saneamento, a recolha de lixo e a criação das mil e uma “empresas municipais”, está agora consternado com a “dissipação de recursos” e com o estado a que a cidade chegou. E está até muito preocupado pela imagem desta “no país e no estrangeiro” – dizem-me (eu não sei, vivo nos arredores de Maiorca, sou um simples vilão) que dos bueiros do Bairro Novo, impávidas, famílias inteiras de ratos passeiam o seu esplendor pela tardinha…
Estranhamente (ou talvez não…) este Joker, cuja candidatura independente dos partidos veio alterar o xadrez político figueirinhas, é agora apoiado pelas mesmas forças vivas que o apoiaram quando foi eleito por um dos partidos do alterne local.
Contudo, ao contrário de um outro de quem já falei aqui, este notável não tem inimigos (!), é honesto (!), e, o que não é pouco, é figueirense; é aliás, um figueirense de lineu: não torce nem amola; não aquece nem arrefece; não adianta nem atrasa; não chove nem molha; não cheira nem fede. O inenarrável Santana Lopes conta tudo nas suas “memórias da Figueira”: “É o chamado homem bom da terra. Sério, honesto, cabelo grisalho, barba grisalha, respeitado. Um homem querido por toda a gente. (…) Mas, quando falei com ele, não deixei de lhe dizer: «o senhor é de uma raça que me faz muita impressão, por uma razão simples: não há quem diga mal de si. Nem sempre confio nas pessoas de quem todos dizem bem porque, em política, quem decide, fá-lo a favor de alguém e contra alguém. Arranja adversários. Quem gera consensos em todo o lado, normalmente, não decide». Viria a ser muito útil.”
Estamos pois conversados.

Sexta-feira, 19 de Junho de 2009

o estado do sítio




(comunicado)


Aos que se preocuparam com a minha ausência, devo uma penosa mas aliviada explicação: após excruciantes exames e quase um mês de angustiosa expectativa, a minha próstata está óóptima, “para um rapaz da sua idade”(!).
Já a coluna lombar, “focada de frente, perfil e oblíquas revela discartrose L4-L5 e L5-S1”.
Ah, e “esboços osteofíticos em relação com a espondilose”. E que não há nada a fazer.
Quanto ao computador, que se apagava a cada dez segundos, técnicos competentes dizem-me que também está bem, isto é, “não tem nada”. Detectado o rooter (não sei se é assim que se escreve isto) marado, técnicos também competentes chegaram à conclusão sensata que o problema foi MEO.
Portanto, “tudo cool, tudo nice”.
Este sítio continuará a ser actualizado com a frequência que permite a normalidade.

Sábado, 6 de Junho de 2009

reflexão


Quinta-feira, 4 de Junho de 2009

Carlos Paredes



Primeiro, uma declaração de interesses.
Nunca gostei de fado. Nem sequer gosto daquilo que chamam guitarra portuguesa, que é uma coisa que os portugueses tocam com dedais na ponta dos dedos, mais ou menos como as portuguesas cosem os botões. Detesto o seu estridente timbre metálico e odeio os lânguidos trinados piegas que em Lisboa, dizem, identificam a alma portuguesa, seja lá isso o que for.
Posto isto, Carlos Paredes era um génio. E tinha talento. Apenas um génio com talento seria capaz de tanger a alma com instrumento tão duvidoso.
A alma portuguesa que eu pressinto na sua guitarra vem de mais longe e de mais fundo; é mais forte, mais grave e tem uma afinação mais acima (Coimbra). Possui subtilezas e um lirismo viril que não têm nada que ver com a melíflua e dengosa pieguice dos trinados que se ouvem no país, pelas capelinhas, pelas lezírias ou em Lisboa, pelas vielas.
Este desenho é uma homenagem a um artista que para além disso é uma espécie de mártir dos artistas. A sua longa e terrível agonia representa o pior pesadelo de todos nós: ele suportou sozinho e impotente, durante 11 longos anos, o espectáculo devastador da própria incapacidade física para concretizar o seu talento. Presumo que deve ser isso o fado; ou a alma portuguesa. Ou a puta que pariu.

Segunda-feira, 1 de Junho de 2009

a parada das sardinhas



A parolice não tem limites.
Na Figueira da Foz não há limites. A parolice pomposa só tem comparação com a chicoespertice. E é igualmente inimputável.
O Centro de Artes e Espectáculos (CAE) fez sete anos. A inefável empresa que gere esse (como eles dizem) “equipamento”, resolveu que as comemorações eram coisa para 3 dias. Porque, dizem, “o sete é um número mágico”(!).
Mas o que mais me intriga na “programação cultural” - para além das bandeirinhas e de uma grandiosa exposição (com entrada gratuita) que explica a prodigiosa política cultural da equipa que tem gerido o designado “equipamento” - são coisas como a “dança vertical dinâmica” e a “Sardinha Parade”. Da primeira até tenho medo de perguntar o que seja, mas deduzo que seja mais uma “actividade” para épater competentemente os pacóvios, tal como a segunda, da qual julgo ter lido que se trata de uma “actividade” em que 15 artistas plásticos irão pintar ao vivo outras tantas sardinhas gigantes(!), que durante o Verão serão colocadas em locais estratégicos da cidade, “até serem adquiridas por empresas ou entidades. A receita poderá ser entregue a instituições do concelho, explicou Ana Redondo.” (Devo dizer que não me canso de lastimar que alguns colegas meus continuem a aceitar participar neste tipo de anedotas circenses, ainda por cima, como sempre e lamentavelmente, à borla).
Claro que tão ambicioso programa “artístico” só pode ser acompanhado de um painel de “oradores ilustres” que tratarão de demonstrar quão rutilante terá sido a gestão económica e o brilho cultural do “equipamento” durante os seus sete anos de vida.
Não há sardinha parade sem um correspondente desfile de carapaus de corrida. Ah, e sem a habitual multidão de basbaques. Sim porque presumo que uma espampanante festarola auto-promocional como esta terá sempre, como eles dizem, um “público alvo”.

Sexta-feira, 29 de Maio de 2009

Don't blame me

De todos os músicos de jazz, Thelonius Monk é aquele que mais parece desenhar quando improvisa sobre as suas composições. Monk toca como quem desenha. Quando delineia as suas desconcertantes composições ele, como um desenhador, hesita, reflecte, calcula. Contudo, mesmo quando recria os standards (como o artista com o seu modelo) o seu desenho não é nunca atormentado com qualquer prurido de verosimilhança e o resultado final é sempre de uma fidelidade rejuvenescida e estimulante.
Trata-se de um desenho aparentemente simples embora nunca óbvio, misteriosamente calculado, como a mais deslumbrante matemática.
Ora, os desenhos sobre o jazz dificilmente não ficam contaminados por essa espécie de descontracção, característica de quem lida com o improviso.
Este retrato de Thelonius padece disso mesmo e talvez ainda de outra característica da sua música, que o tornam (talvez) pouco acessível: uma composição de ornamentos espartanos, quase abstracta - o que, no entanto, reforça o seu carácter reflexivo.
----------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------Para ver (e ouvir) o sr. Monk, tenham a bondade de desligar o som ao sr. Shepp.



Segunda-feira, 25 de Maio de 2009


Sexta-feira, 22 de Maio de 2009

o nau-au do professor e as laranjas do Algarve



Que bem! As mulheres social-democratas do Algarve estão motivadas para a vida pública e política.
Mas é bom saber que um ilustre figueirense não se importa de partilhar com elas “o seu know-how em matéria de Protocolo Autárquico e Organização de Eventos".